"Tal como um livro, uma viagem começa com impaciência e termina com melancolia"

- José de Vasconcelos -

 

ATÉ À PRÓXIMA ...

A ideia de aproveitar três ou quatro dias para voltar a ir em busca de salmão agradava-me. Tratava-se de aproveitar a minha estadia em Toronto, e fazer um pequeno desvio ao Canadá Atlântico. Após o famoso Miramichi, fascinava-me a ideia desta vez, de tentar os rios da Gaspésie, no Québec – quem sabe o Grande Cascapedia, ou o Matapedia.

Rivière St. Anne - Québec

  Joseph Hatch é um amante assumido da pesca ao salmão atlântico.  Tenho conhecido outros “apanhados” – uns pela truta, outros pelo “steelhead” – mas para o este, o salmo salar é rei.  Joseph foi presidente da Atlantic Salmon Federation no Canadá, e é proprietário de uma boa loja dedicada à pesca à mosca, no centro financeiro da baixa de Toronto.  Daí organiza viagens de pesca, a locais de qualidade inquestionável.

  Em cima da hora da minha partida de Lisboa para Toronto, telefonei-lhe para saber se através dos seus contactos se conseguiria organizar algo. Estávamos no início de Junho, e a altura parecia interessante: porque os salmões supostamente estavam em vias de iniciar a sua jornada rio acima; e porque estávamos justamente nos dias que antecedem a grande migração de férias no Québec, que se inicia no dia de S. João Batista, grande feriado da “nation québecoise”.

Foi assim organizada uma estadia de três dias no Rio Ste. Anne, localizado no Parc de la Gaspésie, próximo da povoação de Sainte-Anne-des-Monts. O rio nasce nas montanhas Chic-Choc, de grande beleza natural.

  Nas zonas agrestes dos cumes frios, reside uma comunidade única de “caribou”, normalmente só encontrado nas tundras árticas, mas que aqui fixou residência há tempos imemoriais. Abaixo da linha de árvores, encontra-se frondosa vegetação misturada, de coníferas e árvores de folhagem caduca, típica da paisagem canadiana, que aqui ganha encanto especial com o relevo do terreno.  A área é também supostamente a zona de maior concentração de alces por quilómetro quadrado do País.

No fundo do vale corre o rio Ste. Anne, em direcção ao norte, ao Golfo de S. Lourenço onde vai desaguar. É, segundo os conhecedores, um dos rios mais belos de toda a península da Gaspésie: águas claríssimas, fundo de pedras, largura entre 15 a 30 metros, com alguns rápidos entre poços de profundidade média a baixa.

O troço junto à foz, num percurso de 20 km é de acesso público. Daí para montante, existe uma área concessionada a uma empresa que promove o turismo de natureza na área, e que opera em coordenação com as autoridades, e com as organizações que gerem os recursos piscículas, em particular o salmão atlântico.

 

 

                                                                    “La Grande Fosse”

 

O “acampamento” do “Petit Sault” é constituído por quatro “challets” no meio da floresta, acessíveis por 5 km de estrada de terra batida, numa encosta à beira do rio, de uma beleza cativante.  Os confortáveis “challets” são construídos por toros maciços, com divisórias interiores também em madeira. Dispõem de aquecimento central, iluminação, frigorífico e “kitchnette” a gás, mas não há electricidade (nem TV, nem telefones, graças a Deus...)

 

 

 

 

 

 

 

Les chalets du Petit Sault                            

 

A pesca do salmão é para pescadores masoquistas ou puristas inveterados.  A média de capturas na maior parte dos rios ronda os 0,25 a 0,35 capturas por dia por cana, e raramente atinge valores acima dos 1,2.  O que significa que uma pescaria média se traduz em um salmão cada três dias de pesca – trabalho duro !...

No troço do rio atribuído a este acampamento, a pesca é feita com base em canoas. O troço, de cerca de 12 km, tem 13 poços todos eles “com muito boa pinta”, os quais se vão sucessivamente pescando da margem, mas por acesso em canoa. Cada canoa comporta dois pescadores e dois guias que conduzem a canoa com vara ao longo do rio, com alguns rápidos ligeiros (classe 1 e 2).

  Quase tão difícil como pescar, é entrar na toada do francês “québecois” – mesmo para um canadiano adoptado como eu, com experiência anterior nesta versão da língua de Molière...  Felizmente, valeu a tolerância dos meus dois guias – os irmãos Jacques e Gilbert Gagnon (nome verdadeiramente “québecois”).

 

                                                                      Le guide et son “sport”

A manhã começava com um pequeno almoço substancial, preparado pelo cozinheiro Gérard, destacado para satisfazer os desejos culinários no acampamento. Às oito horas estávamos no rio, até cerca do meio-dia, e depois de novo das duas até às oito.  Às oito e meia de novo o Gérard fazia justiça ao requinte da cozinha de tradição francesa no Novo Mundo.

As moscas utilizadas são tipicamente montadas em anzóis duplos 4 a 6, e um dos padrões favoritos é o “mudler minnow” em tonalidades de castanho, sendo o branco também eficaz em condições de tempo mais claro. Para além disso, usam-se com frequência o “blue charm”, “green highlander”, “rusty rat”, e “cosseboom” entre outros.  Alguns pescadores são entusiastas do “green machine”.  Quanto a moscas secas, reina o “bomber” em várias versões, sobretudo castanhas.

  O primeiro dia amanheceu solarengo, mas ventoso, e assim permaneceu até ao final, com ameaços não concretizados de chuva.  A adaptação às condições foi penosa, com lançamentos bastante dificultados pelo vento, intenso e instável. De qualquer modo, pouparam-nos os mosquitos, indesejáveis companheiros destas lides, nunca convidados mas sempre presentes em dias de acalmia.

Ao final do dia, num dos três poços mais promissores (baptizado de Pelletier, em honra do falecido director da associação de pesca local), tive finalmente a compensação de ver um inegável assomo de um salmão que subia à minha “minnow mudler”.

A simples visão de uma pequena explosão escura na água de resto tranquila é suficiente para aumentar a adrenalina e criar condições de tensão expectante. Ao cabo de dois ou três mais lançamentos para o mesmo sítio, a mosca ficou de repente “presa”, e de imediato a linha me deu notícia inequívoca do encontro confirmado.

Estava eu a cerca de sete metros a montante dos rápidos que terminam o poço, e desde logo se percebeu o risco de uma fuga intempestiva para os rápidos. Daí que de imediato os guias prepararam a canoa, para perseguir o salmão se tal fosse necessário. Em boa hora...  Depois de duas curtas corridas acompanhadas de bruscos sacões, e quando eu supunha que conseguiria trazê-lo, o salmão iniciou uma terceira longa corrida em direcção aos rápidos, e ... por aí abaixo. Felizmente a canoa estava a postos: saltando para a canoa, e já com o carreto no “backing”, descemos rio abaixo e fui conseguindo recuperar.

  Após uma luta de vai-vem, com grandes safanões, embora sem grandes acrobacias, consegui trazê-lo à margem, a ponto de ser segurado pela cauda pelo Gilbert. A luta durou cerca de 12 a 15 minutos. Nesta zona, como na maioria das zonas do Canadá, não é permitido reter salmões acima dos 60 cm. Apenas é autorizada a retenção dos “grilse” (salmões na sua primeira migração rio acima), sendo convencionalmente considerados como tal, os salmões abaixo dessa medida. Após a fotografia da praxe, o herói do dia foi facilmente reanimado e partiu energicamente ao encontro da sua reencontrada liberdade.

 

Salmo salar, enfim ...   

Como era de esperar nesta altura do ano, em que a migração estava no seu início, era um peixe fresco do mar, ainda perfeitamente prateado. Calculámos o peso em cerca de 5 kg, não particularmente grande, mas satisfatório. No Ste. Anne é frequente apanhar salmões nos 9 kg, até aos 15 kg.

Durante os três dias de pesca me ocorreu com frequência a dúvida sobre que razões misteriosas me faziam calcorrear os poços, em lançamentos sucessivos, com tão baixa taxa de sucesso.  Outras tantas vezes, a magia do rio, a expectativa do ataque, a paz da experiência, me fizeram ignorar a necessidade de colocar tais questões.

É por isso que, sendo a pesca do salmão atlântico destinada a puristas ou masoquistas, e não sendo eu nem uma coisa, nem outra, na próxima oportunidade lá estarei de novo.  Até à próxima, salmo salar ...

Julho 2001

Pedro Barros

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