"Tal como um livro, uma viagem começa com impaciência e termina com melancolia"

- José de Vasconcelos -

A pesca do Tarpon na Venezuela  

O tarpon (Megalops atlanticus), é um peixe alongado e prateado com o dorso esverdeado, com uma grande boca perfeitamente adaptada aos seus hábitos predatórios. O último risco de sua barbatana dorsal é bastante alongada. As escamas são muito grandes, mas bastante finas. É um peixe que habita em águas tropicais, tem preferência por zonas de baixa salinidade e de baixa profundidade, sendo encontrado em canais, rios ou baías com acesso directo ao mar. Grupos numerosos de sábalos podem ser encontrados em mar aberto, mas nunca permanecem muito tempo afastados dos seus locais predilectos - os estuários de baixa profundidade. Esta espécie abunda em locais repletos de mangues ou outra vegetação que cresça na água em locais de pouca profundidade.

Além de ser um peixe calmo e astuto, é também um predador muito voraz. São muito preguiçosos nas suas zonas de caça, mas agem com altíssima velocidade após a escolha da presa. Muitos tarpons foram inadvertidamente cravados por pescadores enquanto estes trabalhavam um pequeno peixe preso a uma isca artificial, e isto pode ser complicado, pois os pescadores não estavam preparados física ou psicologicamente, para enfrentar aquela repentina situação.      

São facilmente encontrados exemplares com pesos de 40 até 70 kg, que são um desafio para qualquer pescador, algo maior que isto é um acontecimento muito raro. Já foram pescados á pluma exemplares de 90 Kg, com canas numero 12, e existe a fotografia como prova! No entanto, foram vistos vários exemplares na América Central com 2,5 m e com cerca de 150 Kg, o que não é exagero.

A Lagoa de Tacarígua, uma grande lagoa natural alimentada pelo mar, situada a somente três horas de carro de Caracas. É um lugar maravilhoso, de gente carinhosa, que recebe bem todos os visitantes. Na localidade de Rio Chico, situada na foz da lagoa, não se pratica a pesca comercial desde o século passado, apenas se utilizam métodos de pesca rudimentares como a "tarraia". É um local selvagem, com uma natureza muito bela, é algo novo para os nossos olhos. Durante todo o dia escutam-se e vêem-se pássaros de todas as cores, vêem-se enormes caranguejos que atravessam a rua mesmo á frente dos nossos carros, e, claro, onde se pode pescar tarpons, mais conhecidos no local como sábalos, de 15 até 25 kg. 

 

 

Na minha viagem a este pequeno éden, pude viver momentos difíceis de esquecer. É em locais como estes que vemos como o lado selvagem do nosso mundo,  onde existem coisas que os nossos olhos vêm que são impossíveis de descrever. E é nestes momentos que damos por nós a reflectir, a pensar no quanto pequenos somos perante a Natureza. 

Na Venezuela, o clima é totalmente tropical; sendo assim, a vegetação da lagoa é constituída por autênticas florestas de mangues que, com a ajuda de uma mão divina, transformaram-se em algo de inacreditável. Formaram-se belos canais e ilhas onde não existe terra, apenas as finas raízes dos mangues que se erguem da água suportam o seu peso. Ao longo do tempo este éden torna-se inevitavelmente refúgio para numerosas espécies de aves, peixes e de alguns crocodilos. É dentro destas condições que vamos encontrar e conhecer o sábalo

 

 

Os sábalos mais pequenos podem ser vistos com muita facilidade nas imediações dos mangues, pois são as suas raízes que lhes oferecem refúgio durante o seu estado juvenil. São grupos numerosos em que o peso dos peixes oscila entre 2,5 e 10kg.

Nesta lagoa, é possível pescar o sábalo durante todo o ano, mas a melhor época está situada entre os meses de Junho e Dezembro, que é o momento do ano em que se verifica uma maior actividade, sendo "facilmente" pescados á pluma ou com outra modalidade de pesca em que se utilizem iscas artificiais.  

 

 

O que faz com que este tipo de pesca seja tão desportiva é o facto de se poder pescar com material ligeiro, ou seja, uma cana para linha 7. Mas claro que a escolha da cana vai depender do tamanho do peixe que vamos pescar e do tamanho da pluma que pretendemos utilizar. Por isso,  é aconselhável utilizar uma cana para linha 9. E no caso de pretendermos pescar exemplares para cima de 30 Kg ou até mesmo os de 90 kg perto da foz, teremos que optar por uma linha 11 ou 12.

Quanto aos carretos, seria melhor optar pelos que possuem travão de disco e com capacidade de pelo menos 200 jardas de backing para além da linha principal, pois nunca se sabe o tamanho do peixe que  poderemos cravar. 

LINHAS

Como disse anteriormente, esta lagoa é alimentada pela água do mar, sendo assim, a água não é completamente salgada, pelo menos nos locais mais afastados da foz. Então não é totalmente necessário optar por uma linha especialmente desenhada para pescar no mar -  podemos utilizar qualquer linha WF. Mas claro que as linhas desenhadas especialmente para a pesca no mar pode ajudar-nos a contornar o problema causado pelo vento e pelo peso das moscas, tornando mais fácil os lançamentos.

O LEADER (baixo de linha)

Os leaders para o sábalo são constituídos por duas partes. A "Butt Section", o "Tippet" e o "Chock Tippet".

A Butt Section é constituída por três partes de nylon; a primeira mede cerca de 4 pés e tem uma resistência de 30Kg, a segunda vai unir-se à primeira e tem uma resistência de 15Kg.
A Segunda parte é o Tippet, que é a parte mais importante do baixo de linha. É o elemento mais delicado do baixo de linha e tem uma resistência de 8 Kg ou 10 Kg ( por incrível que pareça é com estes Tippet's com resistência de 10kg que se podem pescar sábalos até 80 Kg).
A terceira parte tem o nome de "Shock Tippet", que é um pequeno segmento de nylon com 25cm com resistência de 30kg, 40kg, 50kg, dependendo do tamanho do sábalo que pretendemos capturar. É importante salientar que o shock tippet serve somente, como o próprio nome indica, para diminuir o efeito de choque que o sábalo provoca no tippet. Se não for usado, é provável que o Tippet ceda perante a violência dos seus saltos.

E, para que o nosso leader seja concluído, é necessário aplicar os nós certos, que são a parte mais importante deste trabalho. Se um nó está mal feito, isto poderá comprometer a captura.

Alguns destes nós são utilizados apenas para a pesca destas espécies tropicais. O nó usado para unir o primeiro segmento de linha ao segundo é o nó de sangue "blood knot", também conhecido por "nó barril", o segundo é terminado com um "Loop Knot". 
O Tippet é feito a partir de um nó "Bimini Twist" em ambos os lados -  este nó é o mais usado na pesca de mar, pois as suas características permitem que o nylon mantenha 100% da sua resistência original. Uma extremidade do Shock Tippet vai ser unido ao Tippet com um "Albright knot" e na outra extremidade será atada a pluma com o nó "Homer Rhode Loop Knot".  

Todos estes nós serão apresentados em futuros artigos.

AS PLUMAS

As plumas usadas para a pesca desta espécie, devem ser montadas em anzóis nº1/0, 2/0 ou 3/0. E é ter na nossa caixa todos os tamanhos possíveis, pois nunca se sabe... Pode utilizar-se plumas de superfície ou de meia água. As primeiras serão a melhor opção, já que é na superfície que o sábalo passa a maior parte do seu tempo. Também é comum usar pequenos poppers e pequenos dívers montados a partir de  lã de ovelha, ou outros materiais sintéticos.

Eu, no primeiro dia de pesca, tive que experimentar todas as plumas  que tinha na caixa - havia duas que deram bons resultados. Uma era uma imitação de um pequeno camarão, e a outra era um streamer de nome "cockroach" feito com quatro penas grizzlly montadas no anzol, com o colar feito de buck-tail negro e a cabeça com epoxy, que me proporcionou boas capturas.  

Nestas águas, é bastante comum encontrar outra espécie de predador, o snook, conhecido como "róbalo" e é comum chegarmos ao final da jornada com alguns exemplares capturados. Para estes peixes, é mais aconselhável utilizar as imitações de camarão, pois são o seu alimento número um. Mas em outra ocasião falaremos deste peixe.

Existem muitos modelos standard para o sábalo que não deixam de ser efectivos, e é necessário não esquecer que as duas plumas que mencionei anteriormente foram eficientes, mas na semana seguinte a preferencia dos sábalos poderia mudar. Sendo assim, é aconselhável ter na caixa vários modelos com várias cores para evitar um possível desgosto. Algumas das plumas que poderia eleger para uma caixa seriam, os "lefty deceivers" (verde, amarelo, vermelho e branco), as "huff's bug" (branco, amarelo e azul), as "skipping bug" (branco, amarelo e azul), e o "minake special" (branco, negro e amarelo)  

O VESTUÁRIO. 

Como as temperaturas em Rio Chico são quase sufocantes, é melhor optar por  roupas desenhadas especialmente para a pesca em zonas tropicais - roupas finas para nos manter o mais confortável possível. O sol tropical é realmente muito perigoso, e para as pessoas que não estão habituadas poderá ser muito mais. Este pode com facilidade causar queimaduras graves na nossa pele. Não se esqueça também de levar o boné, se possível com protecção para o pescoço de modo a evitar o sol. E, quanto menos partes expostas ao sol, melhor.  

EQUIPAMENTO

Dentro de variados equipamentos que podemos levar, os de maior  importância  serão sem dúvida os óculos polarizados, já que assim poderemos ver mais facilmente os peixes nadando perto dos mangais e será menor o efeito causado pelo reflexo do sol na superfície da água.

Um par de luvas sem dedos, muito finas, para proteger a parte superior das nossas mãos. Eu sei bem que com as altas temperaturas e niveis de humidade pode ser bastante desconfortável, mas é bem melhor o ardor provocado por uma queimadura.

 E por favor.....não se esqueça do repelente para insectos, pois pela manhã bem cedo e ao final da tarde temos a denominada "plaga", ou seja, mosquitos minúsculos e insuportáveis que nos atacam sem qualquer piedade. Mas nada de preocupações, pois isto ocorre somente na margem – e, a partir do momento em que entramos no barco e nos afastamos rumo aos sábalos, os mosquitos desaparecem.

Outra coisa importante é levar uma pequena lima para afiar os anzóis, já que os sábalos têm a boca bastante dura. 

COMEÇA A AVENTURA

Para pescar nestas zonas,  é completamente indispensável um guia de pesca. Os guias existentes na região conhecem muito bem toda a lagoa - eles são indispensáveis, pois de outro modo seria relativamente fácil ficarmos perdidos nos canais formados pelos mangues que são autênticos labirintos.  

Depois de algum tempo a navegar e a desfrutar da paisagem,  chegamos ao local onde iniciaríamos a nossa busca pelos sábalos. E não tardou muito até começarmos a ver algum movimento estranho perto das raízes dos mangues. 

 

É algo de impressionante de ver... poderão não acreditar, mas tive momentos que nem sabia onde lançar... Eu gostaria de ver a minha cara no momento em que o guia me disse que eram sábalos! O momento alto desta pesca, é quando conseguimos ver os sábalos em movimento na superfície com a ponta da barbatana caudal fora de água, e, se nesse momento ele não submerge, é necessário com um lançamento preciso, colocar a pluma na sua trajectória.

Assim que o sábalo abre a boca e a nossa pluma desaparece, temos que ferrar com força. Uma das características deste peixe, é que após estar cravado inicia uma série de saltos incríveis, e se não ferrarmos o sábalo com força, é provável que este se solte. Mas se o anzol ficar bem cravado, teremos uma bela fotografia para mais tarde recordar. E por momentos, após libertar o sábalo, não queria acreditar que estava alí, naquele fantástico lugar e com aqueles fantásticos peixes.

Os grandes sábalos estavam refugiados entre as raízes dos mangues -  apenas se escutava o ruído que faziam ao desencadear violentos ataques aos pequenos peixes. E por vezes, surgem aqueles momentos mágicos em que os grandes sábalos saíam dos seus abrigos e deambulavam calmamente pela superfície, são momentos em que o nosso coração quase para. Tive a oportunidade de lançar a minha pluma a alguns exemplares de tamanho respeitável, somente consegui fisgar um que se soltou após o primeiro e violento salto. Mas, na minha cara, juntamente com um pouco de desilusão ficou um sorriso que ainda hoje recordo. 

  

O grande problema desta lagoa é que as águas não são tão claras como no mar, e tem-se um pouco de dificuldade em estudar o movimento dos sábalos na superfície. Apenas quando os vemos a agitar a água, é que conseguimos detectar a sua presença, e com as águas escuras temos dificuldade em avaliar a sua trajectória. Se lançarmos a nossa pluma e o sábalo não a vê, nada feito -  teremos que tentar de novo a nossa sorte.

Algo que é importante, mas mesmo muito importante, é que enquanto estamos no barco á procura dos sábalos pelos canais de mangues, temos que prestar atenção ás sombras que estes fazem na água. Principalmente as pequenas entradas por baixo das ramas que estão sob a água, pois são os locais onde os sábalos permanecem mais tempo, principalmente nas horas em que o sol está mais forte.

Então, logo que avistar um destes locais e mesmo que não observe movimento no local, não pense duas vezes em colocar lá a pluma uma ou duas vezes, aposto que irá ter alguns momentos de cortar a respiração!

Isso sim, se não está habituado a pescar em condições semelhantes é muito importante que antes de iniciar uma viagem deste tipo, treine com intensidade. É importante que consiga colocar com facilidade a pluma a 10cm de uma raiz de mangue, assim como tirar a pluma da água e coloca-la noutro local com apenas um lance. Acredite que a precisão poderá representar o dobro das capturas.

No primeiro dia de pesca consegui apanhar e libertar para cima de 30 sábalos, mas outros tantos escaparam. Mas, a pesca é mesmo assim, e são estes momentos tão especiais, que tornam este tipo de pesca tão emocionante. E no regresso a casa já estamos a imaginar a pescaria de amanhã.

Texto e fotografia:
José Rodrigues

 

 

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"Este é o local em que a lagoa entra em contacto com o mar".

"São abertos túneis labirínticos como este para evitar contornar as grandes e densas ilhas de mangues". 
" Uma manha sem vento como esta, é ideal para iniciar-mos a nossa busca" 
"Estes são alguns dos modelos clássicos utilizados na pesca do tarpon".
"Eis a recompensa... e acreditem que depois de tanto esforço e dedicação, vale mesmo a pena".
 

     

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